Estava a cada segundo mais nervoso. Não sabia mais no que pensar, tanta coisa que tinha na cabeça. O carro quebrado e os dois lá, dando sopa pro que quer que fosse, de noite, naquela estrada. Adam sozinho e indefeso naquele maldito hospital, em coma. A conversa com Bobby e as coisas que ele lhes contaria e que sabia, sabia mesmo, não poderiam ser boas coisas. O pai sumido, ou mesmo aquela cara de limão azedo de Sam...
Respirou fundo, contendo aquela vontade louca de socar algo ou alguém.
Sério, definitivamente o pior era a cara de Sam. O que diabos tinha acontecido?
Não era possível que ele ainda estivesse bravo pela história de terem ido viajar, porque ele era teimoso, mas também não era burro! Precisavam de respostas e de ajuda e Bobby estava oferecendo os dois.
Ouviu seu estômago roncar e respirou fundo outra vez. Bom, se estava com fome imagina aquela criatura anormalmente grande então?
– Acho bom a gente comer alguma coisa... Vamos chegar tarde na casa do Bobby e não tem porque dar mais trabalho pro cara... Até por que, ele vai nos fazer ir pra cozinha tenho certeza. – comentou meio inclinado para a janela do motorista, vendo o mais novo finalmente parar de olhar para o nada.
Mas ele só deu de ombros como quem diz que tanto faz e teve que enfiar as mãos nos bolsos para não entrar naquele carro e bater nele.
– Não leio mentes Sammy... Dá para usar a boca?
– Não estou com fome, se é isso que quer saber. Só quero sair logo daqui... – murmurou contra a vontade, evitando olhar para o mais velho. – Será que o Bobby demora ainda?
– Mais você é fresco mesmo né? Não quer por quê? Porque não têm sua saladinha e shake? – respondeu irritado, olhando atentamente o rapaz dentro do carro, que só cruzou os braços de um jeito claramente incomodado e finalmente o olhou.
– Não sou fresco Dean, só não tô com fome. Estou cansado, dolorido e de saco-cheio desta estrada.
– Cansado? Você não fez nada a não ser ficar nessa, sentado, e está cansado?
– Olha, não foi você que falou que era pra gente dar um tempo? Então dá um tempo Dean! Você consegue parar um minuto? – retrucou impacientemente, e viu claramente quando o mais velho agarrou a porta pelo espaço da janela, apertando o lugar de um jeito claramente agressivo antes de soltar o ar entre uma risadinha irônica, para então voltar a olhá-lo.
– Não sei, acho que você está parado o bastante por nós dois. – respondeu sério e se afastou da janela do carro, encostando-se na lataria, próximo à traseira.
Baixou a cabeça, sentindo o rosto esquentar junto a um bolo que subiu, fechando sua garganta. E depois de tudo o que teve que ouvir essa merda de dia inteiro, com mais essa, sentiu um desejo tão sincero de enfiar um murro na cara dele, berrar, xingar ou sei lá, que quando se viu, já estava quase abrindo a porta do carro. Mas estagnou quando viu os faróis redondos do Chevelle SS se aproximando pelo sentido oposto, pela I-29 S. Era o Bobby, finalmente.
Lançou um olhar rápido para dentro do Impala, vendo o outro voltar a se encostar no banco como se não tivesse visto nada e bufou, caminhando em direção ao carro que ainda não havia parado completamente, saindo da curva do retorno.
– Trouxe o que eu pedi? – perguntou assim que viu o homem sair do veículo, batendo a porta sem muito cuidado.
– Boa noite pra você também, moleque. – respondeu rabugento, vendo o mais novo torcer a boca e umedecer os lábios, sem qualquer sinal de que falaria mais algo. – Trouxe, claro. Qual seria o sentido de eu arrastar meu traseiro por mais de 225 mi se não tivesse trazido? Está no porta-malas.
Entrou de novo no carro e tirou a chave da ignição, abrindo o porta-malas para que o mais novo pudesse pegar o que precisava ali. E olhou em direção ao carro preto parado do outro lado da pista, perto do mato mal tratado, onde finalmente percebeu o outro garoto que saía dele de um jeito claramente abatido, formando uma sombra enorme no meio do breu daquele lugar - que realmente ficava ainda pior agora na lua nova. Sorte o céu estar estrelado, porque depois que os faróis do seu carro se apagaram, percebeu que nenhum dos dois gênios estava com lanterna.
Por isso pegou a sua e ligou-a, indo em direção ao moreno.
– Hey Bobby... – o garoto disse. E estranhou o ar desanimado de sua voz, mas deveria ser apenas chateação pelo tempo que eles passaram parados que nem idiotas naquele meio-de-nada.
– O que aconteceu aqui exatamente? – perguntou a ele, mas foi Dean quem respondeu, enquanto Sam baixava a cabeça, encarando os próprios tênis.
– O freio parou de responder. Cilindro-mestre, aparentemente.
– E você quer consertar isso agora, no meio do nada, no escuro? É um tapado mesmo... – retrucou mal humorado. Teria sido tão mais fácil guinchar aquela lata-velha de uma vez!
Mas desta vez foi ignorado pelo loiro, que entrou no Impala para pegar uma lanterna para si também. E quando olhou para o outro, ele olhava na direção do loiro também com uma perfeita cara de cachorro chutado.
– E vocês ficaram esse tempo todo parados aqui? Porque não pediram ajuda pra algum outro carro?
– Desse tempo aqui, só passaram dois veículos Bobby, os dois reto. Não é muito normal se viajar em uma quarta-feira. – o mais alto se pronunciou então, e foi a vez de Dean olhar para ele, mas ele o fez com uma cara aborrecida, balançando a cabeça antes de voltar a atenção para o que quer que via.
Estranho.
– E o Adam? Vocês deram uma olhada nele antes de vir? Como ele estava?
Perguntou na verdade para ver o que acontecia, pois sabia que não o tinham visto e que saíram às pressas depois do contratempo do hospital. E outra vez um respondeu e o outro se fez de morto, olhando em seguida quando considerou seguro.
O clima entre eles estava um lixo completo e mesmo sabendo do histórico deles, não era o que esperava, depois de ouvir Dean no telefone, contando os fatos com todos aqueles ‘a gente’ e ‘nós’ no meio.
Agora um não olhava na cara do outro e aquilo não tava só com cara de briguinha de casal como sempre tinha. Mas pelo menos no momento preferiu ficar quieto, porque Dean parecia pronto pra morder alguém e Sam a ponto de cair no choro. Por isso só se encostou na frente do próprio carro, sendo seguido pelo mais novo alguns minutos depois, enquanto Dean se virava com o dele.
Demorou bem uma hora para ele concertar o estrago. Já eram 10:30pm e o tempo havia esfriado um bocado ali na estrada, mas quando bateu o capô do carro, parecia satisfeito.
– Pronto! Eu falei que dava um jeito!
Sorriu orgulhoso para os outros dois e quase riu do revirar de olhos do velho amigo do pai, mas quando olhou para a cara do mais novo, que só deu de ombros daquele mesmo jeito distante, perdeu toda a vontade.
– Tudo bem se você preferir ir com o Bobby, Sam. – falou antes que percebesse, vendo o outro finalmente olhá-lo.
– Dean-.
– Aliás, é até melhor, porque pelo menos assim não tenho que bancar a mãe caroneira e andar abaixo da velocidade permitida! – concluiu irritado, se afastando sem esperar resposta.
Acompanhou o movimento do mais velho e suspirou cansado, pressionando os olhos, completamente esquecido do homem ao seu lado, antes de voltar a olhar para as costas do irmão.
– Não faço ideia de que merda me deu pra vir junto... Muito menos por que você insistiu tanto pra que eu ficasse se não me queria por perto. – murmurou para si, vendo-o dar a volta no carro e entrar, batendo a porta sem muito cuidado. E só então se lembrou que havia alguém do seu lado, mas quando olhou para Bobby, ele parecia muito ocupado procurando algo nos bolsos antes de puxar a chave, encarando-o então.
– Vamos logo, rapaz. Não é só porque não vamos chegar em casa hoje que não quero ao menos tentar. – disse enquanto dava a volta no seu próprio veículo. Mas tinha ouvido sim, claramente, o moreno.
–--
– Certo, o que está havendo? – perguntou depois de meia hora no carro com aquele gigante calado com os olhos fixos no retrovisor.
– Hn? – perguntou meio confuso, olhando para a cara do mais velho, que só emburrou ainda mais, olhando para o retrovisor também, dando uma dica sobre o que falava. – Não... não é nada Bobby...
Voltaram a ficar quietos então, e vendo o mais velho atento à estrada, suspirou silenciosamente, coçando a sobrancelha. A quem estava tentando enganar? Queria falar. Aquilo estava engasgado de um jeito na sua garganta que parecia até dificultar a respiração.
– É que... Só queria saber o que fiz de errado. – murmurou numa ironia cansada, olhando novamente para o reflexo do Impala pelo retrovisor.
– Dean é assim mesmo, filho. Nem a mim aquele moleque tem respeito.
– Não é... questão de respeito, sabe? – sorriu um sorrisinho forçado e voltou a ficar quieto, olhando para fora, a imagem do Impala vindo logo atrás. [...]